Autor(a): Sarasvati Yakchini Zridevi Conceição
RQH: S-985131-BRA
1. Introdução
Os sonhos ocupam lugar central na tradição psicanalítica por constituírem uma via de investigação dos processos inconscientes. No material didático do curso, sua interpretação é apresentada como um trabalho que deve considerar as imagens lembradas, a história de vida, as experiências anteriores e a subjetividade do sonhador, evitando a aplicação automática de significados simbólicos (BARROS, 2024).
A tradição freudiana também destaca a associação livre como recurso para relacionar os elementos oníricos às lembranças, aos afetos e às experiências do próprio sujeito. As contribuições de Carl Gustav Jung ampliaram esse campo ao considerar que os sonhos podem mobilizar, além de conteúdos pessoais, imagens e temas de alcance cultural mais amplo. O material pós-freudiano do curso apresenta, nesse contexto, os conceitos de inconsciente coletivo, arquétipos, individuação e simbolismo dos sonhos (REVISÃO…, 2024).
A aproximação entre sonho e mito encontra ainda respaldo na reflexão de Azevedo (2004), para quem o mito não deve ser tratado como código fixo ou como explicação definitiva, mas como linguagem capaz de articular recorrências culturais e atualizações singulares.
Este trabalho analisa um relato onírico autobiográfico marcado por travessia, descida e busca. No sonho, uma mulher encontra-se à margem esquerda de um rio muito escuro e caudaloso, durante a noite e em baixa visibilidade, já em posse de uma chave que associa a algo deixado pelo pai. Ela sabe que deverá usá-la para abrir um baú considerado valioso, localizado em algum lugar desconhecido da outra margem.
Para prosseguir, atravessa o rio em uma canoa conduzida por um velho barqueiro. Sem diálogo ou pedido explícito, sabe que a passagem deve ser paga e entrega moedas antigas que já trazia consigo. Durante a travessia, um pássaro negro provoca sensação de vigilância e mau presságio.
Na margem direita, encontra uma caverna alta e profunda, entra em seu interior e procura o baú em uma região de difícil acesso. O sonho termina antes que o objeto seja encontrado.
A análise colocará essa experiência em diálogo com narrativas míticas de katábasis, sobretudo o livro VI da Eneida e o episódio de Psiquê nas Metamorfoses de Apuleio.
A proposta não é afirmar que o sonho reproduz um mito específico, mas investigar como experiência autobiográfica, elaboração onírica e repertório mítico-cultural podem se articular sem perder suas diferenças.
2. Objetivo do trabalho
O objetivo deste trabalho é analisar um relato onírico autobiográfico à luz de conceitos psicanalíticos referentes à elaboração e ao simbolismo dos sonhos, estabelecendo diálogo com contribuições da psicologia analítica de Carl Gustav Jung e com narrativas míticas de katábasis.
Busca-se observar de que modo elementos da experiência pessoal podem coexistir com formas simbólicas presentes no repertório cultural, sem recorrer a equivalências fixas entre símbolo e significado.
3. Revisão da literatura
Na perspectiva freudiana apresentada no curso, a interpretação dos sonhos depende das associações produzidas pelo próprio sonhador. A associação livre permite relacionar imagens oníricas a experiências, afetos e conflitos, enquanto mecanismos como condensação e deslocamento ajudam a compreender como diferentes conteúdos podem aparecer reunidos ou representados de maneira indireta (INSTITUTO BRASILEIRO DE TERAPIAS HOLÍSTICAS, 2024a).
A literatura didática também ressalta que a linguagem simbólica não deve ser tratada como dicionário universal. Cada pessoa possui associações próprias, e o processo interpretativo deve considerar o contexto individual, evitando fórmulas prontas e respostas definitivas (PSICANÁLISE…, 2024).
No campo pós-freudiano, Jung amplia a leitura dos sonhos ao admitir relações entre imagens individuais e temas recorrentes na cultura. Os conceitos de inconsciente coletivo e arquétipo permitem pensar a presença de formas simbólicas que ultrapassam a experiência biográfica imediata, sem eliminar a singularidade do sujeito (REVISÃO…, 2024).
Azevedo (2004) oferece uma cautela decisiva para a aproximação entre sonho e mito. A autora destaca que um mesmo elemento mítico pode assumir sentidos diferentes e situa o mito na tensão entre universal e singular, estrutura e atualização. Desse modo, o mito pode funcionar como campo de comparação, mas não como modelo fixo capaz de fornecer um significado último à experiência analisada.
4. Fundamentação teórica
A análise será orientada por três eixos.
O primeiro é freudiano e privilegia a distinção entre aquilo que é lembrado do sonho e os processos de elaboração envolvidos em sua formação, com atenção à associação livre, à condensação e ao deslocamento (INSTITUTO BRASILEIRO DE TERAPIAS HOLÍSTICAS, 2024a).
O segundo é junguiano e considera a possibilidade de ampliação simbólica mediante associações culturais e míticas, preservando a experiência individual (REVISÃO…, 2024).
O terceiro eixo é fornecido por Azevedo (2004): a comparação com o mito não deve apagar as diferenças entre os discursos nem transformar uma narrativa mítica em chave interpretativa universal.
Neste trabalho, portanto, a katábasis será utilizada como estrutura comparativa para examinar motivos de travessia, descida, limiar, mediação e busca por algo situado além do campo imediatamente acessível.
5. Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e interpretativo, organizado como estudo de caso autobiográfico a partir de um relato onírico.
O material analisado compreende o sonho tal como é recordado pela sonhadora, os afetos e pensamentos vividos durante a experiência, as associações produzidas imediatamente após o despertar e as associações biográficas, culturais e míticas reconhecidas posteriormente.
Para evitar a sobreposição entre experiência onírica e interpretação, são diferenciados quatro níveis:
- conteúdo manifesto lembrado;
- pensamentos e afetos ocorridos durante o sonho;
- associações imediatas ao despertar;
- associações formuladas posteriormente.
As narrativas míticas são utilizadas como material comparativo, não como códigos destinados a revelar um significado único ou definitivo.
6. Análise e discussão
O sonho organiza-se em torno de uma sequência clara: preparação para a travessia, passagem por um limiar e busca em profundidade.
A sonhadora já inicia a experiência diante do rio e em posse da chave. Não há lembrança de uma cena na qual o pai lhe entregue esse objeto; o dado onírico é apenas a associação entre a chave e algo deixado por ele. Preservar essa diferença é importante para que a análise não acrescente ao sonho conteúdos que nele não apareceram.
A chave possui função concreta: deverá abrir um baú valioso localizado em algum ponto desconhecido da outra margem. O conteúdo do baú permanece ignorado. Após o despertar, a sonhadora não o associa diretamente ao conjunto conhecido da herança paterna, mas a algo distinto, oculto e ainda não descoberto. Assim, o eixo paterno aparece relacionado ao acesso, não ao conteúdo do tesouro.
O rio é lembrado como muito escuro e caudaloso, atravessado durante a noite e em silêncio inquietante. A sonhadora sente tensão e se pergunta quem ou o que poderá encontrar do outro lado, mas não se percebe paralisada pelo medo. Há também coragem, necessidade de prosseguir e expectativa diante do desconhecido. O valor analítico da cena depende, portanto, não apenas do símbolo “rio”, mas da forma como ele é vivido.
O velho barqueiro introduz uma figura mediadora. Não ocorre diálogo ou cobrança explícita; mesmo assim, a sonhadora sabe que a travessia deve ser paga e retira do bolso moedas antigas. Esse elemento reúne função narrativa, memória pessoal — pois possui moedas antigas em sua vida desperta — e posterior ressonância cultural. A coexistência dessas camadas exemplifica como uma imagem onírica pode concentrar associações distintas.
Durante a passagem surge um pássaro negro. Ainda no sonho, a sonhadora se pergunta se seria um corvo e o percebe como mau presságio, vigilância e possível interesse naquilo que ela carrega. É importante distinguir essa percepção ocorrida dentro do sonho das associações mitológicas produzidas depois.
Na margem direita, a paisagem muda: surge uma caverna alta e profunda, dentro da qual estaria o baú. O objeto não está enterrado, mas oculto em uma região de difícil acesso. Em associações posteriores, a caverna aparece vinculada à profundidade, ao abrigo, ao ocultamento e à preservação, sem que uma dessas possibilidades seja tomada como significado exclusivo.
O sonho termina antes que o baú seja alcançado, e a frustração ao despertar preserva a busca como experiência inacabada.
6.1 Amplificação mítica: katábasis, figura paterna e busca pelo desconhecido
A estrutura do relato apresenta afinidades com narrativas de katábasis, isto é, jornadas de personagens vivos em direção ao mundo inferior ou a espaços de passagem associados à morte, à busca e ao conhecimento.
Entre essas narrativas, o livro VI da Eneida, de Virgílio, oferece o paralelo estrutural mais significativo. Eneias penetra no mundo inferior acompanhado pela Sibila, atravessa regiões sombrias, encontra Caronte e busca seu pai morto, Anquises (VIRGÍLIO, 1910, livro VI).
A aproximação torna-se especialmente relevante pelo eixo paterno, mas a diferença é decisiva. Na Eneida, o pai é o destino da descida: Eneias procura Anquises e recebe dele conhecimento sobre descendência e destino. No sonho, o pai não aparece nem é procurado. A sonhadora já traz consigo uma chave associada a algo deixado por ele. A função paterna desloca-se, assim, de objeto da busca para referência ligada ao instrumento de acesso.
Essa diferença dialoga com a biografia da sonhadora, na qual a figura paterna está associada a escritos, objetos, baús e conteúdos mantidos em ambiente reservado. Entretanto, ela distingue o tesouro procurado no sonho da herança paterna que já conhecia. A chave pode, portanto, evocar legado e acesso, mas o sonho não autoriza concluir que o conteúdo do baú corresponda ao legado concreto recebido.
Outro paralelo com a Eneida aparece na ambientação: caverna, escuridão, águas do mundo inferior e a figura de Caronte. No entanto, há uma diferença quanto ao pagamento. Eneias não atravessa mediante moedas; sua passagem ocorre com o ramo de ouro.
O motivo das moedas aparece de maneira mais direta no episódio de Psiquê, nas Metamorfoses de Apuleio. Psiquê recebe a tarefa de descer viva ao mundo inferior e retornar trazendo um recipiente de Perséfone. Ela recebe instruções para levar moedas destinadas ao pagamento de Caronte (APULEIO, 1915, livro VI).
Esse episódio oferece um paralelo complementar: mulher viva, descida, pagamento da travessia e busca envolvendo um recipiente de valor.
As diferenças, contudo, permanecem importantes. Psiquê sabe o que deve buscar e recebe instruções detalhadas; no sonho, a sonhadora sabe apenas que existe um baú valioso e desconhece seu conteúdo.
A familiaridade prévia com os dois relatos também não é equivalente. A sonhadora conhecia a narrativa de Psiquê, enquanto não reconhece, em sua memória consciente, conhecimento específico da descida de Eneias no livro VI da Eneida. Sua formação em História impede excluir contatos indiretos ou fragmentários, mas ela não se recorda de ter lido a obra nem de conhecer esse episódio.
Essa diferença não comprova origem arquetípica ou sobrenatural do material; apenas recomenda cautela ao discutir possíveis ressonâncias culturais.
Dessa forma, a Eneida ilumina principalmente a descida, a caverna, o velho barqueiro, a passagem para o mundo inferior e o eixo paterno. Psiquê acrescenta a viajante viva, as moedas e a busca por um recipiente. Nenhuma das duas narrativas é utilizada como matriz explicativa total.
Em consonância com Azevedo (2004), o mito funciona aqui como campo de ampliação simbólica, não como chave fixa de decifração.
7. Estudo de caso autobiográfico
O caso é constituído por um sonho ocorrido aproximadamente cinco anos antes da elaboração desta redação. Não houve recorrência. A lembrança permaneceu marcada pela força das imagens e pelo fato de a busca ter terminado sem resolução.
Após o despertar, a sonhadora sentiu frustração por não conhecer o conteúdo do baú e associou inicialmente a experiência à ideia de ter estado em um “limbo”. Em momento posterior, a combinação entre rio, velho barqueiro e moedas evocou Caronte.
A dimensão autobiográfica concentra-se sobretudo no eixo paterno. Após a morte do pai, objetos, escritos e materiais ligados à sua doutrina particular foram preservados ou reunidos em baús, vinculando esse tipo de objeto a memória, segredo e legado familiar.
Apesar disso, o baú do sonho não foi reconhecido como simples representação desses materiais conhecidos. A própria experiência onírica sugeria algo diferente, distante e ainda inacessível.
Essa distinção impede reduzir a busca à recuperação literal de uma herança paterna.
8. Desafios e limitações
A principal limitação decorre da natureza autobiográfica e retrospectiva do material. O sonho é analisado aproximadamente cinco anos após sua ocorrência, o que impede a pretensão de reconstrução integral.
Por isso, a análise considera apenas o conteúdo que permaneceu na memória e diferencia o que ocorreu durante o sonho das associações surgidas depois.
Outra limitação é o caráter interpretativo do estudo. Os símbolos não possuem significados universais e invariáveis, e a comparação com narrativas míticas não demonstra relação causal entre elas e o sonho.
A ausência de lembrança consciente da Eneida torna a aproximação interessante, mas não exclui contato cultural indireto. Também não se propõem explicações sobrenaturais para as correspondências observadas.
Por fim, trata-se de um único relato autobiográfico, cujos resultados não podem ser generalizados. Sua contribuição está na demonstração de um procedimento interpretativo capaz de articular psicanálise, psicologia analítica, memória autobiográfica e mitologia sem transformar semelhanças em equivalências definitivas.
9. Conclusão
A análise permitiu observar como uma experiência onírica singular pode articular conteúdos autobiográficos, afetivos e culturais.
A perspectiva freudiana contribuiu para manter a interpretação vinculada às associações pessoais e aos mecanismos de elaboração onírica; a contribuição junguiana abriu espaço para a ampliação simbólica; e Azevedo (2004) forneceu a cautela necessária para que o mito não fosse empregado como código universal.
A comparação com a Eneida mostrou-se especialmente produtiva pelo eixo paterno. Enquanto Eneias desce para encontrar o pai morto, no sonho o pai não é destino da jornada: está associado à chave que já se encontra em posse da sonhadora.
Psiquê ofereceu um paralelo complementar pela viajante viva, pelas moedas e pela busca envolvendo um recipiente. Em ambos os casos, as diferenças foram tão relevantes quanto as semelhanças.
O aspecto mais significativo do relato permanece aberto: o sonho termina antes que o baú seja alcançado. A análise não permite afirmar o que o tesouro representa, mas evidencia uma estrutura de travessia, acesso e busca ainda não concluída.
O mito, nesse contexto, não resolve o sonho; amplia o campo de perguntas a partir do qual ele pode ser compreendido.
10. Referências bibliográficas
APULEIO. The Golden Ass: being the Metamorphoses of Lucius Apuleius. Ed. Stephen Gaselee. London: William Heinemann; New York: G. P. Putnam’s Sons, 1915. Livro VI.
AZEVEDO, Ana Vicentini de. Mito e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
BARROS, João. A interpretação dos sonhos: explorando o significado dos sonhos e o acesso ao inconsciente. Material didático do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, 2024.
INSTITUTO BRASILEIRO DE TERAPIAS HOLÍSTICAS. Psicanálise (I): censura onírica e o inconsciente. Material didático do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, 2024a.
INSTITUTO BRASILEIRO DE TERAPIAS HOLÍSTICAS. Psicanálise e os sonhos no processo terapêutico. Material didático do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, 2024b.
PSICANÁLISE e o simbolismo dos sonhos (II). Material didático do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, 2024.
REVISÃO: teoria pós-Freud — módulo 2. Slides. Material didático do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, 2024.
VIRGÍLIO. Aeneid. Tradução de Theodore C. Williams. Boston: Houghton Mifflin, 1910. Livro VI.
Sarasvati Yakchini Zridevi Conceição