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A IMPORTÂNCIA E ATUALIDADE DA CLÍNICA RELACIONAL DE SÁNDOR FERENCZI

A IMPORTÂNCIA E ATUALIDADE DA CLÍNICA RELACIONAL DE SÁNDOR FERENCZI

Autor: José Kleber Moreira Teotonio

Redação Temática apresentada ao Instituto Brasileiro de Terapias – IBT, como requisito para conclusão do Curso Livre em Formação Psicanálise Clínica. João Pessoa 2026

1. Introdução

Se a pessoa que busca um suporte terapêutico sente que sua dor está sendo minimizada ou friamente analisada, dificilmente conseguirá estabelecer uma relação transferencial que o encoraje a manter o processo terapêutico e, por conseguinte, enfrentar suas questões emocionais mais profundas. Nesse sentido, Sándor Ferenczi, um dos primeiros colaboradores de Freud, trouxe uma perspectiva inovadora ao questionar as normas tradicionais da psicanálise. Em um período em que a técnica era rigidamente definida, ele propôs uma abordagem mais humanizada e relacional. Ele trouxe uma nova compreensão sobre o trauma, a possibilidade de restabelecer no setting terapêutico a escuta da linguagem infantil presente nas memórias do paciente adulto, enfatizou a importância da transferência e contratransferência, entendendo-as não apenas como fenômenos a serem observados, mas como ferramentas essenciais para a conexão terapêutica. Essa interação dinâmica entre analista e analisando pode facilitar um espaço de cura, onde as emoções são reconhecidas e trabalhadas. Defendeu, ainda, uma flexibilização dos elementos teóricos e éticos que sustentam a escuta clínica; argumentou que um ambiente acolhedor e empático é crucial para o sucesso do tratamento. Essa flexibilidade permite uma adaptação às necessidades do analisando, promovendo um espaço onde ele se sinta seguro e engajado na terapia. A prática clínica introduzida por Ferenczi na saúde mental, inspirou outros psicanalistas, seus analisandos/alunos e discípulos, entre eles, os mais conhecidos, Melanie Klein, Winnicott, que adotaram mudanças no setting psicanalítico, onde o analista deve se adaptar ativamente ao que o analisando traz, seja no acompanhamento de adultos ou de crianças e, em casos mais graves, limites, de psicose, onde há uma atividade narcísica mais acentuada. Suas intuições continuam a ressoar na prática clínica atual, onde a empatia e a autenticidade são valorizadas como componentes essenciais para o relacionamento terapêutico. E mais, servem para qualquer profissional que trabalha com saúde: a escuta ativa e o acolhimento são ferramentas terapêuticas tão importantes quanto qualquer teoria.

2. Objetivo do trabalho

Objetivo Geral
Analisar a importância de uma intervenção clínica, em psicanálise, pautada na acolhida empática, como forma de facilitar a relação transferencial na análise e afastar as queixas de analisandos sobre a frieza e o distanciamento do terapeuta durante o processo.

Objetivos Específicos

  • Resgatar a figura do psicanalista Sándor Ferenczi, pioneiro entre os discípulos de Freud pela sua experiência clínica, onde a escuta empática estava ao centro da relação analista-analisando, prática sui generis para época, que suscitou muitos questionamentos e até, como se diz hoje em dia, “cancelamento”, mas, ao mesmo tempo, trouxe reflexões, desdobramentos e discípulos para a clínica psicanalítica.
  • Propor a teoria ferencziana como modelo relacional que pode trazer benefícios tanto para os analisandos na clínica psicanalítica, assim como para outras intervenções terapêuticas.

3. Revisão da literatura

O ponto de partida para o desenvolvimento da Redação Temática, não poderia ser outro senão um aprofundamento na teoria freudiana, origem e base dos estudos propostos pela formação; portanto, retomar alguns conceitos base como inconsciente, trauma, setting terapêutico, transferência, contratransferência, entre outros. E os textos de Freud, disponíveis nos exemplares: “Fundamentos da Clínica Psicanalítica” e o “Mal-Estar na Cultura”, foram fundamentais. A cada leitura, se entrevia a recente escola de Freud com seus discípulos, entre eles, Ferenczi. Imaginar a descoberta e adesão fervorosa do jovem médico, “enfant terrible”, à nova teoria que desafiava as teorias e métodos existentes voltados à saúde mental, posteriormente, perceber as divergências teóricas, ressalvas e posicionamentos na sua atuação. A síntese final, se revela no alicerce da sua clínica, acolhedora, paciente e construtora de pontes, que favoreceram a transferência, entre analista e analisando. Explorar os escritos de Ferenczi, com o objetivo de conhecer seu pensamento sobre os conceitos psicanalíticos primordiais, como o inconsciente, o trauma, a transferência e, a partir daí, elaborar suas teorias inovadoras, todas baseadas seja na sua análise pessoal (com Freud), como na sua atuação, com a escuta ativa, sua compreensão do trauma e da cura, colher nesse itinerário, as conexões com Freud e as “divergências” ou desdobramentos teóricos enriquecidos pela prática clínica. Nesses quesitos, foi oportuno adquirir e ter acesso aos escritos originais contidos nas “Obras Completas de Sándor Ferenczi”, e ainda, as reflexões de Alexandre Patrício Almeida sobre as transformações criativas da teoria e prática de Ferenczi, resgate precioso, em “Por uma Ética do Cuidado”, voltados para psicanalistas e educadores. Cabe mencionar o trabalho de apresentação e divulgação do pensamento ferencziano, na internet pela Dra. Sandra Barilli com “As Melhores Frases do Psicanalista que Revolucionou o Entendimento do Trauma”, pensamentos que funcionam como pílulas concentradas das ideias cativantes de Ferenczi, como também, no artigo sobre a “Confusão de Línguas entre o Adulto e a Criança, um dos pilares do desenvolvimento teórico que recoloca o analista no seu papel, como tradutor, que escuta e acolhe o trauma não como um fato isolado, mas, recompondo o ambiente acolhedor, esperado pela criança do adulto, interpreta sua “língua”, sua lógica pulsional. Esses posicionamentos, que abrem uma nova perspectiva sobre a pessoa do analista, na sua escuta integrativa que se configura de forma a ler no corpo o sintoma do trauma; além de lançar as bases da construção do ambiente terapêutico do psicanalista iniciante.

4. Os fundamentos e herança da psicanálise freudiana.

Sigmund Freud, inaugura, no final do século XIX, a clínica da escuta do inconsciente, escondido no sintoma trazido pelo sujeito. O que representou uma novidade na atenção e no cuidado da saúde mental, que exige uma atenção mais profunda: daquilo que não se sabe ao certo, que se apresenta na palavra que escapa, no sonho sem sentido, no ato falho ou por meio do corpo. O inconsciente se manifesta, insiste, fala e se repete, até que seja escutado. A intervenção psicanalítica, portanto, se funda e se perpetua, até os nossos dias, na acolhida do sujeito que fala e escuta o que está para além do EU, o que foi recalcado, o desejo que pulsa, o que traumatiza, dói, angústia e foge ao seu controle. A clínica freudiana, desde o início, se deparou com o trauma, situações que imprimiram marcas profundas e não elaboradas pelo indivíduo. A psicanálise entende o trauma não apenas como um evento externo, a ser modificado ou substituído, mas como um evento insuportável inscrito no psiquismo, que insiste em retornar até que seja, elaborado, não significa eliminado, mas compreendido, ressignificado, traduzido pelo próprio sujeito em análise. Nos escritos que contemplam os fundamentos da teoria psicanalítica, Freud relata que o objetivo do método pode ser expresso em várias fórmulas, mas que é essencialmente, sito: “[…] tornar todos os recalques reversíveis; o estado psíquico, então, seria o mesmo que aquele em que todas as amnésias foram preenchidas. Em outra formulação, ainda vamos além: tratar-se-ia de tornar o inconsciente acessível ao consciente, o que ocorre através da superação das resistências” (Freud,1904/2024, p.56). Com a teoria do inconsciente, Freud apresenta uma nova visão da saúde mental, a partir do sintoma apresentado pelo analisando, a queixa tem algo a dizer, a revelar de si mesmo, parte da sua própria essência. “Fazer as pazes com o recalcado, que se expressa nos sintomas, dessa forma será algo preparado desde o início, mas também se calcula uma certa tolerância para com o estar-doente”. (Freud, 1913/2024, p. 146). Freud considera o natural e esperado, que o percurso terapêutico, seja pautado por resistências e repetições. A cada resistência, a cada repetição, algo novo é concebido pelo paciente, como se montantes de afetos retidos fossem liberados, tornando-o mais consciente de si. Uma tarefa difícil para o analisando que exigirá, por parte do analista, muita paciência. Aqui, além da relação colaborativa entre analista e analisando, compreende-se o vocativo, paciente, aquele que usa de paciência, enquanto agente do processo ativo da própria cura. Lembrar, repetir e ressignificar, são fundamentais para o trabalho em psicanálise. Lembrar: é o primeiro passo, onde o analisando começa a trazer à tona memórias, experiências e sentimentos que podem ter sido reprimidos ou esquecidos. A lembrança é crucial, pois cria um espaço para que o indivíduo comece a explorar sua história e como ela molda suas emoções e comportamentos atuais. Repetir: nessa fase, o analisando pode começar a perceber padrões de comportamento que se repetem em sua vida. Isso pode incluir dinâmicas relacionais ou reações emocionais que se manifestam de maneira similar em diferentes situações. A repetição muitas vezes revela questões não resolvidas que precisam ser examinadas mais profundamente. Ressignificar: o objetivo final é ajudar o analisando a ressignificar essas experiências. Isso significa não apenas entender o que aconteceu, mas também reinterpretar essas memórias e emoções de uma forma que permita um novo significado e uma nova maneira de se relacionar com elas. Até aqui, o vínculo criado entre analisando, fornece um ambiente seguro, que sustenta a transferência onde o analisando se sente à vontade e confiante para prosseguir explorando suas vulnerabilidades. A empatia, pode ser compreendida de diferentes formas, mas também ser confundida com simpatia, o que não corresponde ao pensamento de Freud, para ele, empatia, seria a capacidade de “entrar dentro” do outro, por meio da escuta, atenta, presente e flutuante. Contudo não se pode ignorar o aspecto afetivo da empatia, da mesma forma, o risco de uma supervalorização da mesma, podendo alimentar identificações, projeções e introjeções durante o processo. A relação transferencial e contratransferencial, implica na formação de elos relacionais, onde transitam energias carregadas de emoções e afetos. Em Freud, o afeto é um dos pontos mais ricos da experiência intelectual humana. Ele ressalta a importância de considerá-lo em todo o percurso de uma análise, como forma mobilizadora, pois, este mesmo afeto capaz de bloquear o indivíduo, angústia, abandono, inibição, desejos e interesses, é também capaz de liberá-lo, recompondo sua presença emancipatória na vida do analisando. De acordo com Safatle, (2024, p.449).“Ser afetado é instaurar a vida psíquica através da forma mais elementar de sociabilidade, sociabilidade que passa pela aiesthesis (sensação) e que, em sua dimensão mais importante, constrói vínculos inconscientes.” O que nos leva a pensar que como na vida social, também na clínica freudiana, o afeto aparece como elemento importante para a superação dos conflitos psíquicos, assim como a maturação de vínculos sociais.

5. A escuta do inconsciente e a prática clínica desenvolvida por Ferenczi.

O conhecimento do inconsciente, nas palavras de Ferenczi: A exploração do universo psíquico inconsciente está associada, portanto, ao nome de Freud. Foi ele quem elaborou um método de exame analítico do psiquismo mórbido e são, que foi sendo aperfeiçoado e refinado progressivamente, colocando assim o nosso conhecimento do psiquismo em bases radicalmente novas. Desde Freud, sabemos que o desenvolvimento individual do psiquismo humano não pode se comparar ao crescimento progressivo de uma superfície esférica mas, antes, ao de uma árvore cujo tronco serrado permite reconhecer os círculos concêntricos que representam os anos vividos. Nas camadas inconscientes do psiquismo sobrevivem, quando se acreditava que estivessem eliminados há muito tempo, os instintos incultos e amorais, os complexos de representação primitivos da nossa infância e adolescência; como estão subtraídos ao poder de moderação, de controle e de direção da consciência, podem perturbar a harmonia lógica, ética e estética do ego consciente, provocando explosões de paixões, de atos inoportunos, ineficazes e compulsivos, e muitos sofrimentos e dores inúteis.(XXIV, 2023, p.270- 271) Sándor Ferenczi (1873-1933), foi um psiquiatra e psicanalista húngaro, esteve entre pioneiros e mais próximos colaboradores de Sigmund Freud, um dos primeiros a difundir e, sobretudo, aplicar a psicanálise na Hungria. Inicialmente esteve alinhado com os pensamentos teóricos produzidos por Freud, mais tarde, baseado na prática da escuta de seus pacientes, começou a divergir ao enfatizar a importância da realidade externa e das experiências interpessoais (como o abuso e a negligência) na formação da neurose, em contraste com a ênfase freudiana inicial na fantasia. Assim, trouxe contribuições importantes na sua prática psicanalítica, no entendimento do trauma; na influência dos abusos ocorridos na infância sobre a psique adulta e, de modo particular, na relação entre terapeuta e paciente. Embora sendo um dos pioneiros da psicanálise e seus trabalhos tenham merecido a admiração e o respeito de Freud e se inscrevam entre as mais importantes contribuições à ciência psicanalítica, Ferenczi permanece pouco conhecido entre nós. Em 1914, Freud escrevia em História do movimento psicanalítico: “A Hungria, tão próxima da Áustria geograficamente, produziu um único colaborador, S. Ferenczi, mas um colaborador que, por si só, vale toda uma sociedade.” Mais tarde, em 1933, em sua notícia necrológica, Freud escreveu que certos artigos de Ferenczi fizeram de todos os analistas seus alunos. (Balint, 2023, Prefácio VII) Desenvolveu a escuta acolhedora, empática, como elemento central, levando à sua famosa ideia de que o analista deve ser um “substituto dos pais”, retificando a linguagem e a compreensão do trauma como algo não simbolizado. Seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da Psicanálise Relacional e das abordagens focadas no trauma, sendo hoje visto como um precursor essencial para a compreensão da dinâmica entre analista e paciente. Alexandre Patrício de Almeida, em seu livro: “Por uma Ética do Cuidado”, apresenta de modo encantador a intervenção empática e inovadora de Ferenczi e seus seguidores. Trata-se da acolhida e manejo empático do analista, postura ética e, todavia, necessária na compreensão da clínica contemporânea, nesse ambiente dedicado à “cura” (curare), ao cuidado pelo o outro, por meio da escuta. Podemos afirmar que, no campo psicanalítico, a ética do cuidado inaugurou-se com as contribuições do analista húngaro Sándor Ferenczi, recebendo novos e importantes significados por meio das descobertas e publicações do pediatra britânico Donald W. Winnicott. Ferenczi ficou conhecido, em nossa história, como o analista de “casos difíceis”, atendendo inúmeros pacientes que haviam sido vítimas de traumatismos psíquicos severos e que, por isso, não respondiam à técnica psicanalítica padrão desenvolvida por Freud. O autor húngaro também se consagrou como um grande cientista clínico, buscando sempre o alívio efetivo dos sofrimentos de seus analisandos. Winnicott, por sua vez, é um herdeiro direto da pediatria e ingressou na psicanálise com esse “diferencial” a seu favor. O autor inglês se considerava um estudioso da natureza humana e, gradualmente, firmou os alicerces de sua teoria do desenvolvimento maturacional. “Cuidado”, portanto, é o termo winnicottiano usado para se referir à provisão ambiental, imprescindível à integração do ser que, nos primeiros períodos da vida, necessita de uma presença ativa, devotada e confiável, desempenhada pela figura cuidadora”. (Almeida, 2023 p.55)

5.1 O entendimento do trauma por Ferenczi

“Deixe seu paciente ser, pela primeira vez, uma criança. Acolher antes de interpretar. Permitir antes de exigir. Isso é escuta.” O trauma, segundo Ferenczi, reside justamente na falha da simbolização do evento vivido. Quando a psique não consegue integrá-lo, nomeá-lo ou simbolizá-lo através da linguagem ou da narrativa. O que permanece é uma marcação afetiva bruta, um excesso de afeto que não foi processado, exigindo, muitas vezes, que o corpo ou a repetição processem e revelem o que a palavra não conseguiu dizer. Essa falta de simbolização é o que mantém o evento “vivo” e repetitivo no presente. A partir desse conceito, trouxe uma mudança fundamental na compreensão do trauma, focando na experiência real e interpessoal do paciente. Para ele, o trauma é um choque que paralisa a capacidade de processamento psíquico, exigindo uma resposta empática e ativa do analista para ajudar o paciente a “digerir” o que foi vivido. Percebeu que o mesmo, frequentemente, decorre de ações reais (abuso, negligência, falha empática grave) por parte de figuras paternas e cuidadores, e não apenas de fantasias internas do paciente, segundo o pensamento de Freud. A esse respeito, introduziu o conceito de “confusão de línguas” ou a falha na capacidade do cuidador de responder adequadamente às necessidades infantis, o que produz interpretações que impedem a simbolização. A criança, diante da fragilidade ou da invasão dos pais, abdica da sua linguagem infantil e assume uma postura “adulta” para sobreviver. Ela não amadurece, mas endurece. E esse endurecimento precoce deixa marcas profundas, que ecoam na vida psíquica adulta como feridas silenciosas. Nesse sentido, o processo terapêutico se apresenta como um espaço aberto e empático, capaz de restabelecer e priorizar a linguagem entre o analisando e o analista, um campo compartilhado, uma interação entre indivíduos que se dispõem a escutar o inconsciente. É um encontro humano no campo analítico, por meio da a transferência e a contratransferência, onde ocorrem trocas de energia e cruzamento de subjetividades, que possibilitam a cocriação. O analista, ao escutar, se implica, como “tradutor” dos vínculos existentes na narrativa do paciente.

5.2 A transferência e a contratransferência: uma estrada de mão dupla

Freud inicialmente, a partir dos estudos sobre a histeria, considerou a transferência como um fator patológico, derivado da própria doença, uma falsa aliança que seria, um obstáculo à análise. Posteriormente, dando continuidade aos estudos do caso, na história Anna O., admite a transferência como um fluxo de energia que facilitaria o entendimento e atualização do trauma, portanto, ao contrário de obstaculizar, facilitaria o seguimento da pulsão. A partir deste vínculo transferencial, o trauma passa a ser visto como uma falha na elaboração da energia psíquica. A transferência, posteriormente, torna-se uma técnica central, que auxilia na fala do paciente, na interpretação dos sonhos, na atualização das memórias passadas, na observação dos lapsos, esquecimentos, nas superstições e defesas, ampliando seu alcance da narração e tradução do inconsciente. Com o acompanhamento e estudo do caso Dora, Freud identifica a presença de um componente contratransferencial, quando se vê afetado, envolvido para além da fala, do sofrimento do paciente, o que acabou gerando impasse e interrupção do tratamento. Esse caso, levou-o a compreender que os sentimentos do analista durante a sessão não são apenas projeções do paciente, eles provocam, naturalmente, reações no que precisam ser evitadas, analisadas distintamente e usadas clinicamente. Sándor Ferenczi expandiu as ideias sobre transferência e contratransferência, propondo que o analista deve usar a própria contratransferência (sentimentos gerados pelo paciente) como ferramenta clínica, e não apenas evitá-la. Para ele, o analista não é um espelho neutro, mas um participante ativo que deve analisar suas reações e usá-las para guiar a sessão.

5.3 A “confusão de línguas”, a falha empática na relação com o terapeuta.

“A frieza do terapeuta pode ser tão danosa quanto a negligência de um cuidador.” A repetição da falha empática do cuidador primário dentro do setting terapêutico, acontece porque o paciente, inconscientemente, tende a transferir a dinâmica de relacionamento traumática para o analista, esperando (e às vezes provocando) a mesma resposta falha ou negligente que experimentou no passado. Essa repetição serve como um “teste” para ver se, desta vez, o analista conseguirá se manter presente e empático de forma diferente, ou se ele confirmará o padrão anterior. As marcas da confusão de línguas na clínica com o adulto, retorna de forma sutil, na dificuldade de falar do seu próprio sofrimento, na confusão entre amor, sofrimento e culpa, no silêncio excessivo, na dificuldade de expressar suas experiências afetivas. Para Ferenczi a língua própria da criança é só ternura, afeto em busca de proteção, cuidado, acolhimento; enquanto a língua do adulto é a paixão, em forma de sedução, objetificação, idealização, poder e agressividade. Nesse sentido, no adulto, a língua infantil sofre uma tradução violenta, confusa e desmedida. O rompimento da técnica excessivamente distante, proposta por Ferenczi, busca escutar a versão infantil do adulto, recuperando a memória afetiva, sustentando-a, oferecendo cuidado, atenção e afeto em forma de presença confiável. Essa postura é capaz de quebrar as resistências ou paradigmas a respeito do próprio processo analítico. Se essa benevolência vier a faltar, a criança vê-se sozinha e abandonada na mais profunda aflição, isto é, justamente na mesma situação insuportável que, num certo momento, a conduziu à clivagem psíquica e, por fim, à doença. Não surpreende que o paciente não possa fazer outra coisa senão repetir exatamente, como quando da instalação da doença, a formação dos sintomas desencadeados por comoção psíquica. Os pacientes não se impressionam com uma expressão teatral de piedade, mas apenas com uma simpatia autêntica. Não sei se a reconhecem no tom da nossa voz, na escolha de nossas palavras, ou de alguma outra maneira. Seja como for, adivinham, de um modo quase extralúcido, os pensamentos e as emoções do analista. (Ferenczi, 1933/2024, p.115) A habilidade do analista em reconhecer e responder de forma diferente a essa provocação é o que permite a construção da relação que possibilita às transferências posteriores e o cuidado da ferida original. Nesse sentido, Ferenczi, em seu texto de 1928, “A Elasticidade da Técnica Psicanalítica”, critica o modus operandi do psicanalista, caracterizada por uma certa rigidez, pelo estereótipo frio, distante, que quase não fala, não cumprimenta, um manejo terapêutico que não expressa afeto, empatia. Apontando a “falha” na condução da análise e a necessidade do analista desenvolver um certo “tato”, ou seja, uma atitude flexível e sensível, acolhedora que evite impor dogmas de neutralidade, estéril e silêncios forçados, o que pode gerar resistência, desconforto diante do analista e frustração em relação à psicanálise, desistência e, consequentemente, prolongamento do sofrimento do paciente. Ele defende um autoexame constante do analista para reconhecer a possibilidade de erro e a incerteza, para perceber a relação terapêutica, o equilíbrio e dosagem na elasticidade da técnica e a necessidade do analista fazer ou ter concluído sua própria análise para evitar a “hipocrisia dos analistas” que dificulta a cura (cuidado) do caso. Portanto, uma adaptação do setting analítico, com o manejo da elasticidade, caso a caso, uma escuta empática e afetiva, que facilite a transferência ao longo do processo.

6. Conclusão

“Se queremos entender nossos pacientes, precisamos estar dispostos a sentir com eles. O paciente só pode confiar no terapeuta quando sente que sua dor está sendo verdadeiramente escutada e validada.” Sándor Ferenczi, considerado “l’enfant terrible” da psicanálise, nos deixou o exemplo da prática da escuta com ética e sensibilidade, comprometida com o cuidado, com o acolhimento da dor indizível e com a restituição da subjetividade daquele que sofre. Ao resgatar a sua memória e a importância da abordagem relacional, desenvolvida por ele, que não apenas enriqueceu a psicanálise, mas também oferece um modelo valioso e necessário para a prática contemporânea, onde a conexão humana e a compreensão mútua são essenciais para a transformação emocional. Suas ideias e visão do espaço clínico acessível e acolhedor, seguem vivas, inspirando o analista em cada gesto terapêutico, fundamentais para sustentar com coragem e afeto o impossível da clínica e gerar o interesse do analisando em seu percurso terapêutico.

7. Referências

ALMEIDA, Alexandre Patrício de – Por uma Ética do Cuidado, Ferenczi para educadores e psicanalistas, Volume 1, Editora Edgard Blücher Ltda, São Paulo, 2023
BALINT, Michael – Sandor Ferenczi, Obras Completas, Psicanálise I e IV, Editora WMF Martins Fontes Ltda, São Paulo, 2024.
BARILLI, Sandra – Sándor Ferenczi: As Melhores Frases do Psicanalista que Revolucionou o Entendimento do Trauma (https://institutobarilli.com.br/sandor-ferenczi-frases/ 07/03/2025); A Confusão de Línguas entre o Adulto e a Criança: A contribuição de Ferenczi para a Clínica do Trauma,
https://institutobarilli.com.br/a-confusao-de-linguas-entre-o-adulto-e-a-crianca-a-contribuicao-de-ferenczi-para-a-clinica-do-trauma/ 29/12/2025)

IANNINI, Gilson e TAVARES, Pedro Heliodoro (Coordenação, prefácio e notas) – Obras incompletas de Sigmund Freud, Fundamentos da Clínica Psicanalítica; O Mal-estar na Cultura, Autêntica, Belo Horizonte, 2024.
KAUFMANN, Pierre – Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, O legado de Freud e Lacan, Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, 1996.

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