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AUTOSSABOTAGEM

Autor: Israel Vanderlei Costa

Introdução

Na clínica, é comum o terapeuta ouvir pessoas inteligentes, capacitadas e experientes dizendo que “algo sempre dá errado”, às vezes acreditando em uma espécie de “conspiração do universo” visando seus fracassos, quando estão prestes a avançar. O curioso é que, quanto maior a possibilidade de sucesso, maior parece ser a força que as puxa para trás. Não se trata de falta de competência, perícia, nem de azar recorrente. Trata-se de um movimento inconsciente muito mais sofisticado, silencioso e eficaz: A Autossabotagem.

Uma das armadilhas mais frequentes no senso comum é tratar a autossabotagem como preguiça, desorganização ou medo consciente. A vivência clínica ensina o oposto. Ninguém se sabota por falta de vontade de vencer ou mesmo por ter uma vida “bagunçada”. As pessoas se sabotam porque algo em seu interior as leva a não atingirem o sucesso, inclusive bagunçando a própria vida para que não haja foco em suas conquistas.

Essa constatação, embora desconfortável, é fundamental para compreender por que tantos profissionais, empresários, professores e autônomos permanecem presos em ciclos de estagnação que eles próprios ajudam a sustentar. Um “ímã psicológico” que os paralisa em um teto de prosperidade e que não os deixa passar daquele ponto.

Este trabalho nasce da prática clínica e não de uma abstração teórica. A proposta é analisar a autossabotagem como um fenômeno inconsciente, estruturado por crenças, identificações parentais e conflitos não elaborados, usando como referência a base analítica de Freud, Lacan e Jung, sem abrir mão de uma leitura clínica autoral e contemporânea.

Objetivo

O objetivo deste trabalho é compreender a autossabotagem como uma manifestação inconsciente ligada à manutenção de vínculos simbólicos e afetivos primários, analisando como crenças inconscientes podem operar contra o que o próprio sujeito tem como definição de sucesso pessoal. Para isso, será apresentado e discutido um estudo de caso clínico, buscando articular teoria psicanalítica clássica e prática terapêutica, com foco na ressignificação de papéis, limites e responsabilidades psíquicas.

Deste modo, o trabalho fará uma análise de diversos ângulos, procurando abordar critérios objetivos, segundo a psicanálise clássica, mas sem perder o fator de observação que só é possível com a vivência clínica do terapeuta.

Revisão de literatura

Freud, ao tratar das identificações e do ideal do eu, já apontava que cada um constrói a imagem de si mesmo a partir das figuras parentais e das expectativas nelas projetadas, sendo essas expectativas fruto muitas vezes, da própria criatividade do indivíduo em sua percepção subjetiva de suas referências. Quando essas identificações entram em conflito com o desejo próprio, o resultado costuma ser culpa inconsciente e repetição sintomática. Em muitos casos, o fracasso funciona como uma forma de autopunição ou de fidelidade a um ideal internalizado, podemos encontrar exemplos genéricos de tais práticas como um filho que ouve constantemente dos pais que “dinheiro é sujo” e ao internalizar tal crença, o sujeito começa a ter dificuldade em guardar dinheiro ou mesmo investir, pois o inconsciente o incentiva a se livrar do dinheiro (gastar), o mais rápido possível, afinal, ele não quer ficar com o que considera sujo, ou mesmo, aquela filha que ouviu de sua mãe que “homem nenhum presta” e se torna frustrada em todos os seus relacionamentos amorosos, de modo a viver como se nenhum homem prestasse, atraindo portanto os “imprestáveis”, para se relacionar. Há diversos exemplos do cotidiano e mais à frente, vamos avaliar um caso clínico real.

Temos como outra referência de análise quando Lacan amplia essa leitura ao definir a noção do Nome-do-Pai como operador simbólico que organiza o desejo. Quando a figura paterna sofre uma queda inesperada de idealização (cai do pedestal idealizado em que fora posto), o sujeito pode enfrentar um colapso simbólico, ficando sem referência para sustentar sua posição no mundo, desse modo, perdendo sua própria identidade de modo inconsciente. Muitas vezes o corpo, então, passa a falar aquilo que o sujeito não consegue mais idealizar de si mesmo. “Quando a representação falha na comunicação, o corpo assume o discurso”.

Jung, por sua vez, também aborda os complexos parentais e a dissociação de aspectos da personalidade contribuindo, portanto, na análise terapêutica onde podemos ver no estudo de caso abaixo, a influência direta que os pais tiveram na criação da personalidade e na frustração e comportamento autodestrutivo que foi gerado a partir da perda de referência. A não integração das dimensões dos complexos parentais pode gerar comportamentos contraditórios, nos quais o sujeito conscientemente busca (sonhos, metas e objetivos do que avalia ser “sucesso”), algo que, inconscientemente, precisa evitar para preservar sua organização psíquica (crenças).

Apesar das diferenças teóricas, os três autores convergem em um ponto essencial: o sintoma não é um erro biológico, mas uma solução possível dentro da lógica inconsciente do sujeito. E toda solução inconsciente cobra um preço, nesse caso, chamamos de autossabotagem quando o preço cobrado é o que o indivíduo considera sucesso, sonho ou felicidade.

Fundamentação teórica

A autossabotagem, sob a ótica psicanalítica, não deve ser entendida como falha de caráter ou falta de força de vontade. Ela opera como uma defesa inconsciente, um mecanismo de proteção. Proteção contra o quê? Contra a ruptura de vínculos internos que sustentam a identidade do sujeito. Um exemplo disso é, como se até então o indivíduo tinha como crença inconsciente de que dinheiro era sujo, pois ouviu de seus pais, guardar dinheiro se torna romper com o que até então considerava ser correto, mediante ao que aprendera com sua referência de valores, princípios e moral. Romper esse vínculo é se expor ao perigo imaginário de deixar de pertencer ao grupo que considera “dinheiro sujo”.

Em muitos casos clínicos, avançar significa trair expectativas parentais apreendidas, abandonar lugares simbólicos ocupados desde a infância ou assumir uma posição que exige responsabilização subjetiva onde, inconscientemente o sujeito estaria mandando em si mesmo mais do que as maiores referências de autoridades tidas até então, os pais (ou as representações destes). O inconsciente, quando pressionado, prefere o sintoma conhecido à liberdade desconhecida.

É nesse ponto que a psicanálise clínica exige mais do terapeuta do que a repetição de conceitos e técnicas padronizadas. Compreender Freud, Lacan, Klein, Rank ou Jung é fundamental, pois é o fundamento da compreensão psicanalítica e ser psicanalista sem conhecê-los é como construir uma casa sem colunas. Mas saber escutar, com pensamento clínico, onde o sujeito se aprisiona por lealdade inconsciente é o que realmente transforma o processo terapêutico e te tira da condição de psicoterapeuta para um psicanalista.

Metodologia

Este trabalho utiliza o método de estudo de caso clínico, com base em atendimentos realizados em contexto terapêutico. A abordagem é psicanalítica, com preservação ética da identidade da paciente. O caso foi analisado a partir da escuta clínica, da observação dos sintomas apresentados, dos relatos da vivência do paciente (passado e presente), das expectativas e projeções de futuro (sonhos e objetivos) e das intervenções realizadas ao longo do processo terapêutico, com foco na ressignificação simbólica e na reorganização das crenças inconscientes.

Análise e discussão do caso clínico

A paciente é professora e pastora em uma igreja evangélica, tem pais que também são pastores e casou-se com um homem que hoje também é pastor. Procurou atendimento inicialmente com a queixa de emagrecimento, após um ganho significativo de peso e dificuldade em recuperar a forma que tinha no início de sua vida conjugal. Desde a infância, ela e suas três irmãs foram criadas por um pai que desejava um filho homem. Mecânico, ele as ensinava a consertar carros, nome das peças e como limpá-las, reforçando constantemente a ideia de que mulheres deveriam ser fortes, independentes e emocionalmente contidas. Elas foram criadas brincando em meio às peças de carro, chão sujo de graxa e o pai com as unhas e mãos sempre manchadas pela graxa.

Paralelamente, a mãe transmitia a crença de que, para conseguir um bom marido, era fundamental não engordar, “homem gosta de mulher magra”, ela dizia constantemente. O corpo feminino, desde cedo, tornou-se um campo de vigilância e exigência. Magreza não era apenas estética, mas valor moral. A mãe, ao avistar mulheres obesas, as usava como exemplos de mulheres que não se cuidam e que só conseguiriam homens preguiçosos e péssimos maridos. Sempre que comiam tinham o controle inconsciente da mãe para não repetirem o prato, pois isso iria engordá-las.

Na vida adulta, a paciente mantinha-se magra, funcional e ativa, não aceitava obedecer o marido ou deixar de trabalhar, pois queria ser independente, para ela, depender de homem era coisa de mulher fraca. Foi assim até descobrir que o pai traía a mãe com uma mulher da própria igreja, uma mulher mais nova e nem tão magra. Essa revelação produziu uma ruptura profunda. O pai idealizado caiu. O pai, que era pastor daquela mesma igreja, era amado por todos e tratado como um “paizão” por toda a comunidade. Um exemplo a ser seguido, um pai admirado e quase idolatrado, mas naquele momento, um ser humano passível de erro, tão humano e frágil quanto qualquer outro homem. Com a “queda moral” dele, ruiu o alicerce simbólico que sustentava sua visão de família, casamento, estética pessoal e autoridade.

A partir desse evento, a paciente passou a engordar, abandonou cuidados pessoais e desenvolveu uma reação de congelamento diante de confrontos verbais. Bastava alguém elevar o tom de voz para que ela travasse, totalmente incapaz de reagir. Diante de qualquer conflito, entre a luta e fuga, aparentemente o corpo preferia “fingir de morto”, onde ela ficava sem reação alguma no momento em que presenciava a agressividade à frente dela.

Clinicamente, tornou-se evidente que a paciente passou a ocupar um lugar que não lhe pertencia: o lugar da dor da mãe. Carregava um luto conjugal que não era seu, como se precisasse pagar, com o próprio corpo, pela falha moral do pai, tomava sobre si o jugo da mãe, inclusive se dando o poder de perdoar ou não o pai pela traição conjugal em um movimento inconsciente de inversão de papéis. Aqui, a autossabotagem não era descuido, mas uma lealdade desproporcional, assumindo um lugar na família que não era o dela. Ela não fracassava por falta de capacidade, mas por não se permitir seguir adiante. Como se o que dava sentido para seu emagrecimento e sua força de vontade como mulher fosse o exemplo que ela tinha em seus pais, quando o exemplo ruiu, ruiu também a única referência que fazia sentido pra ela até então.

As intervenções terapêuticas concentraram-se em alguns pontos centrais:

  1. Diferenciar o papel de filha do papel de esposa, devolvendo à mãe a dor que lhe pertencia.
  2. Questionar para quem ela buscava agradar ao se manter magra e cuidada.
  3. Ressignificar a traição como falha conjugal, e não como desqualificação da imagem paterna enquanto pai.
  4. Trabalhar a falibilidade humana do pai sem destruir a admiração construída na infância.
  5. Reafirmar que o perdão, nesse caso, não era uma exigência moral da filha.

Uma das intervenções mais significativas foi a frase: “Pare de se colocar em um lugar que não é seu.”. Essa intervenção veio através de uma reflexão de lugar em sua família. Onde ela estava e onde ela deveria estar. A quem o pai traiu e o porquê daquilo a ofender.

A partir desse reposicionamento, a paciente retomou o cuidado com o corpo, emagreceu, buscou um visagista e passou a se perceber novamente como mulher e como esposa. Embora ainda esteja em acompanhamento quanto às reações diante de confrontos, os testes clínicos indicam uma resposta emocional mais organizada.

O atendimento começou de forma semanal por 2 meses e posteriormente passou a ser quinzenal já durando 4 meses até esse estudo.

Desafios e limitações

Apesar dos avanços, é importante reconhecer os limites do processo. Situações futuras de confronto ainda podem reativar o sintoma, exigindo continuidade terapêutica. Além disso, trata-se de um estudo de caso único, o que não permite generalizações ou conclusões absolutas. O processo adotado, afinal, não trabalha com fórmulas, mas com indivíduos, não engessando os métodos, mas mantendo escuta ativa a cada paciente.

Conclusão

A autossabotagem, longe de ser um defeito pessoal, revela-se como uma estratégia inconsciente de preservação psíquica. O sujeito fracassa não por incapacidade, mas porque, naquele momento, avançar significaria romper com vínculos internos e lugar de pertencimento inconsciente.

Este estudo demonstra que, quando o terapeuta ajuda o paciente a devolver responsabilidades aos lugares corretos, o sintoma perde seu sentido, ao eliminar o sentido do que sabota o indivíduo, ou até mesmo gerar um sentido maior no objetivo, geramos uma mudança de postura, de hábitos e de comportamento. Mudar dói, mas não mudar também dói, o que fazemos o indivíduo pensar não é na dor e sim no que é possível ganhar com a dor que é inevitável. É como pensar na injeção que cura uma doença, podemos ficar doente ou tomar uma injeção dolorida para sarar. Não existe o certo, cada indivíduo deve refletir se a doença é pior ou melhor que a cura.

A psicanálise não elimina conflitos, mas ensina o sujeito a escolher quais dores está disposto a sustentar e para que.

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