Autor: Otavio Ferreira Santos
SEXUALIDADE, ATUALIDADE E A PSICANÁLISE NA ADOLESCÊNCIA.
Catanduva – São Paulo
2025
Otavio Ferreira Santos
Sexualidade, atualidade e a psicanálise na adolescência.
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção de grau acadêmico.
Catanduva – São Paulo
2025
INTRODUÇÃO
Este Trabalho de Conclusão de Curso, fundamentado em revisão de literatura, tem como finalidade analisar como a psicanálise compreende a sexualidade no período da adolescência, especialmente diante dos desafios da contemporaneidade. A adolescência é reconhecida como uma fase marcada por intensas transformações corporais, emocionais e sociais, exigindo do sujeito a reformulação de suas representações internas, de seu corpo e de seu desejo.
A sexualidade, enquanto aspecto estruturante do psiquismo, ressurge nesse momento com novas configurações simbólicas, pulsionais e subjetivas. As rápidas transformações socioculturais — sobretudo aquelas associadas às tecnologias digitais, à disseminação acelerada de informações e às novas formas de interação — tornam esse processo ainda mais complexo.
Nesse contexto, a psicanálise apresenta-se como uma ferramenta teórica e clínica capaz de interpretar conflitos, angústias e manifestações inconscientes que emergem nessa fase da vida. Os conceitos fundamentais do campo psicanalítico contribuem para compreender a construção subjetiva e o posicionamento do adolescente diante de sua sexualidade.
OBJETIVO DO TRABALHO
Este trabalho tem como objetivo investigar, por meio de revisão bibliográfica, como a psicanálise entende a sexualidade na adolescência e de que forma essa visão se articula com os fenômenos socioculturais da atualidade. Pretende-se identificar os conceitos fundamentais relacionados ao tema, analisando suas aplicações na prática clínica e suas implicações sociais e subjetivas.
REVISÃO DE LITERATURA
Os autores clássicos da psicanálise — Sigmund Freud, Jacques Lacan e Donald Winnicott — constituem a base teórica para compreender a sexualidade na adolescência. Freud (1905/1996), ao desenvolver a teoria da sexualidade infantil, afirma que a puberdade representa um momento decisivo, pois reorganiza as pulsões e inaugura uma nova economia libidinal. No texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud afirma:
“A puberdade introduz mudanças tão profundas no desenvolvimento da libido, que dela resulta uma nova organização psíquica da vida sexual.”
(FREUD, 1905/1996, p. 207)
Essa reorganização envolve a intensificação das pulsões, o retorno de conteúdos infantis e a necessidade de novas identificações.
Lacan retoma essa discussão sob o ponto de vista da linguagem e do desejo, enfatizando que o sujeito está estruturado no campo simbólico. Para ele, o adolescente encontra-se diante da falta do Outro, confrontando o enigma do desejo e do corpo em transformação. Segundo Tavares e Alberti (2018, p. 45):
“A adolescência constitui uma etapa lógica em que o sujeito se depara com o sexo e com o real da falta no Outro, o que convoca novas formas de subjetivação.”
Estudos atuais reforçam que a dimensão corporal da puberdade não pode ser compreendida separadamente dos significantes que atravessam o sujeito. Como aponta o Cadernos de Psicanálise (2015, p. 112):
“O corpo da puberdade não é apenas biológico; é um corpo atravessado pela linguagem.”
Outra contribuição essencial vem de Winnicott, que enfatiza o papel do ambiente emocional no desenvolvimento. De acordo com Oliveira Dias (2020, p. 381):
“Falhas ambientais nos estágios iniciais tendem a repercutir na vida afetiva e sexual do sujeito, influenciando sua forma de lidar com o próprio corpo na adolescência.”
Autores contemporâneos, como Carvalho (2022), também destacam a influência de discursos sociais e escolares na constituição subjetiva do adolescente, apontando como esses discursos moldam vivências de gênero e sexualidade.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1. Pulsão e Desenvolvimento Psicossexual
Freud concebe a pulsão como a força que move o sujeito em direção à satisfação. Durante a puberdade, ocorre uma reorganização pulsional articulada às transformações corporais. Essa etapa é decisiva, pois integra conteúdos infantis à sexualidade adulta.
2. Linguagem, Desejo e o Outro
A partir de Lacan, compreende-se que o desejo do sujeito está sempre relacionado ao campo simbólico e ao Outro. A adolescência acentua esse confronto com a falta e com o enigma do sexo, produzindo novas formas de subjetivação.
3. Ambiente e Maturação Emocional
Winnicott destaca o papel do ambiente como suporte para o desenvolvimento emocional. Um ambiente suficientemente bom facilita a simbolização e o enfrentamento das mudanças próprias da adolescência, enquanto falhas ambientais podem gerar maior angústia e empobrecimento simbólico.
METODOLOGIA
Este estudo adota abordagem qualitativa por meio de revisão bibliográfica. Foram analisados livros clássicos da psicanálise, artigos científicos revisados por pares e produções contemporâneas que abordam sexualidade, adolescência e subjetividade. A seleção priorizou materiais reconhecidos academicamente, garantindo rigor teórico e diversidade nas perspectivas.
ANÁLISE E DISCUSSÃO
A sexualidade adolescente não pode ser reduzida ao corpo biológico; ela é permeada pela linguagem, pelos significantes familiares, sociais e culturais que constituem o sujeito. A puberdade provoca uma ruptura simbólica, reorganizando a economia libidinal e trazendo desafios inéditos ao adolescente.
No contexto atual, a cultura digital intensifica as demandas de construção identitária. O contato precoce com conteúdos sexualizados, a supervalorização da imagem e a performatividade nas redes sociais impactam diretamente a subjetividade.
A psicanálise, ao oferecer uma escuta que vai além do comportamento, permite compreender as questões inconscientes envolvidas na sexualidade. A teoria de Winnicott reforça que um ambiente emocional frágil pode dificultar a simbolização, aumentando angústias e conflitos.
ESTUDOS DE CASO (ILUSTRATIVOS)
Pode-se imaginar o caso de um adolescente que vivencia forte ansiedade diante das mudanças corporais e não consegue simbolizar adequadamente seus sentimentos. A psicanálise permite trabalhar essas questões, oferecendo espaço de escuta e interpretação.
Outro exemplo envolve conflitos relacionados à orientação sexual. A teoria lacaniana pode auxiliar na compreensão das identificações, do desejo e da falta, sem patologizar ou limitar a vivência subjetiva.
DESAFIOS E LIMITAÇÕES
A pluralidade das teorias psicanalíticas dificulta uma interpretação única e definitiva sobre a sexualidade na adolescência. Além disso, a velocidade das transformações tecnológicas cria fenômenos subjetivos que ultrapassam os modelos clássicos. Como revisão bibliográfica, o trabalho depende da disponibilidade e qualidade das fontes consultadas.
CONCLUSÃO
Conclui-se que a sexualidade na adolescência, sob a ótica psicanalítica, é um fenômeno complexo que articula pulsões, linguagem, simbolização e ambiente. A psicanálise permanece fundamental para compreender tanto a dimensão subjetiva quanto os efeitos da cultura atual.
Recomenda-se que pesquisas futuras incluam estudos empíricos que explorem as vivências adolescentes na era digital, ampliando o diálogo entre psicanálise, educação e cultura.
REFERÊNCIAS
- ALMEIDA, Alexandre Patrício de. Reflexões sobre sexualidade e gênero na perspectiva de D. W. Winnicott. Estilos da Clínica, v. 29, n. 1, p. 86-102, 2024.
- BECHARA, Laura Carrasqueira. Os tempos da adolescência: uma proposição teórico-clínica psicanalítica. Tese (Doutorado) — Instituto de Psicologia, USP, 2025.
- CARVALHO, Lucas. Adolescência, gênero e sexualidade: uma leitura psicanalítica. Unicamp, 2022.
- CADERNOS DE PSICANÁLISE. Corpo e linguagem na puberdade, v. X, 2015.
- DIAS, Elsa Oliveira. A infância na psicanálise winnicottiana. Revista de Psicanálise da SPPA, v. 18, n. 2, p. 375-395, 2020.
- FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905/1996. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.
- TAVARES, Aline; ALBERTI, Sônia. Adolescência e psicanálise: sobre a importância de acolher o recém-chegado. Psicanálise & Barroco em Revista, v. 14, n. 2, 2018.