Autor: Demilson da Silva Fernandes
Instituto Brasileiro de Terapias
Trabalho de Conclusão de Curso
Psicanálise Clínica
2025
Resumo
O presente trabalho analisa, sob o enfoque da Psicanálise, como os transtornos cognitivos interferem no funcionamento psíquico, especialmente nos processos de memória, atenção, linguagem e pensamento. Enquanto a psicopatologia contemporânea tende a examinar déficits cognitivos pela via neurobiológica, este estudo propõe compreender como tais alterações repercutem no aparelho psíquico, nos mecanismos de defesa, na constituição do sujeito e na dinâmica inconsciente. A revisão teórica inclui autores como Freud, Lacan, Bion e Winnicott, articulando conceitos psicanalíticos com achados da neuropsicologia. A pesquisa adota abordagem qualitativa exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica e análise interpretativa. Conclui-se que os transtornos cognitivos, embora descritos por critérios clínicos, possuem implicações profundas na subjetividade, revelando a importância da escuta analítica no tratamento e no manejo clínico.
Palavras-chave: Psicanálise; Cognição; Transtornos Cognitivos; Memória; Sujeito.
Introdução
Os transtornos cognitivos têm recebido crescente atenção nas últimas décadas devido ao aumento da prevalência de quadros como demências, comprometimento cognitivo leve, déficits de atenção, alterações executivas e distúrbios da memória associados a diferentes condições clínicas e psicológicas. A maioria dos modelos explicativos fundamenta-se na neurociência e na psicologia cognitiva, privilegiando fatores biológicos, cerebrais e funcionais.
Contudo, a Psicanálise oferece um olhar distinto: para além da descrição dos sintomas, interessa investigar o que acontece com o sujeito quando suas funções cognitivas são alteradas. Como a perda da memória afeta a constituição simbólica? Como a dificuldade de atenção repercute na capacidade de simbolização? Como a linguagem – fundamento do inconsciente – é impactada quando há declínio cognitivo?
Este trabalho busca explorar essas questões para contribuir com a compreensão clínica e teórica das interações entre cognição e aparelho psíquico.
1. Justificativa
A justificativa deste estudo baseia-se em três pontos principais: 1) Crescimento epidemiológico dos transtornos cognitivos na população, especialmente relacionados ao envelhecimento e ao estresse crônico. 2) Necessidade clínica de incluir a dimensão subjetiva nos tratamentos, que frequentemente se concentram exclusivamente em aspectos neurobiológicos. 3) Relevância teórica de atualizar a Psicanálise frente ao diálogo com a neuropsicologia e às novas formas de sofrimento psíquico.
Logo, estudar Transtornos Cognitivos sob a ótica psicanalítica amplia a compreensão sobre o impacto da cognição no processo de subjetivação.
2. Problema de Pesquisa
Como os transtornos cognitivos interferem na constituição e no funcionamento do aparelho psíquico de acordo com a Psicanálise?
3. Objetivos
3.1 Objetivo Geral
Investigar, sob a perspectiva da Psicanálise, a relação entre transtornos cognitivos e a dinâmica psíquica, identificando impactos sobre o pensamento, memória, linguagem e constituição do sujeito.
3.2 Objetivos Específicos:
- Descrever os principais tipos de transtornos cognitivos;
- Analisar o papel da memória e da atenção na estrutura psíquica;
- Relacionar conceitos psicanalíticos clássicos e contemporâneos aos processos cognitivos;
- Refletir sobre implicações clínicas na prática psicanalítica.
4. Referencial Teórico
4.1 Psicanálise e Cognição: aproximações possíveis
Embora Freud não utilize o termo “cognição” nos moldes atuais, sua teoria já contemplava funções psíquicas como atenção, percepção, pensamento e memória. Para Freud, o aparelho psíquico organiza experiências sensoriais e simbólicas, criando representações que estruturam a vida psíquica.
Enquanto Lacan, ao reformular a teoria freudiana, enfatiza o papel da linguagem na constituição do sujeito. Assim, alterações cognitivas que comprometem linguagem e simbolização repercutem diretamente no acesso ao inconsciente.
Já Bion introduz uma contribuição fundamental: a capacidade de pensar depende da transformação emocional. A falha cognitiva pode expressar falhas na função alfa, impedindo que experiências sensoriais se transformem em elementos pensáveis.
4.2 Transtornos Cognitivos na Psicopatologia Atual
A neuropsicologia define transtornos cognitivos como comprometimentos em áreas como: Memória; Atenção; Funções executivas; Linguagem; Praxias e gnosias; Velocidade de processamento.
Entre os transtornos mais estudados estão: Demência de Alzheimer; Declínio cognitivo leve; Transtorno de déficit de atenção; Amnésias orgânicas ou funcionais.
4.3 A Memória na Psicanálise
A memória na Psicanálise não se reduz a um processo de armazenamento. Ela é dinâmica, marcada por recalcamentos, construções e reconstruções. Freud destaca que o inconsciente conserva traços mnêmicos atemporais, que retornam por meio de sintomas e formações do inconsciente.
Quando há transtornos cognitivos, podem coexistir: Perdas neurobiológicas reais; Falhas simbólicas; Reorganizações subjetivas.
A clínica das demências mostra que a memória afetiva e inconsciente pode persistir mesmo diante da degradação cognitiva.
4.4 Linguagem e Sujeito nos Transtornos Cognitivos
Para Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Assim, dificuldades cognitivas que alteram o uso da linguagem têm impacto na enunciação do sujeito, podendo gerar: Empobrecimento do discurso; Rupturas na cadeia significante; Fragilidade do eu; Dificuldades de simbolização.
4.5 Pensamento, Função Alfa e Processos Cognitivos (Bion)
Bion distingue entre pensar e ter pensamentos. Em quadros cognitivos graves, o paciente pode ter pensamentos que não são metabolizados pelo aparelho psíquico.
Nos transtornos cognitivos: A capacidade de transformar experiências em pensamento fica prejudicada; Aumenta a ansiedade primitiva; Surgem defesas primitivas como cisão, identificação projetiva e desorganização.
5. Metodologia
A pesquisa é qualitativa, de caráter exploratório e baseada em revisão bibliográfica. Foram analisados textos clássicos da Psicanálise, estudos contemporâneos, artigos da neuropsicologia e pesquisas sobre transtornos cognitivos.
Materiais utilizados
- Livros e artigos psicanalíticos;
- DSM-5 e manuais clínicos para definição de transtornos cognitivos;
- Estudos comparativos entre cognição e Psicanálise.
Procedimentos
- Levantamento bibliográfico;
- Seleção e leitura crítica;
- Análise interpretativa psicanalítica;
- Síntese e articulação teórica.
6. Análise e Discussão
6.1 A subjetividade no declínio cognitivo
A perda cognitiva não elimina o sujeito, mas altera sua forma de manifestar-se. Mesmo em processos demenciais avançados, persistem: Afetos; Traços inconscientes; Rações simbólicas; Marcas da história subjetiva.
Assim, o sujeito não se reduz ao funcionamento cognitivo.
6.2 A clínica psicanalítica com pacientes com alterações cognitivas
A prática clínica demonstra que: O setting precisa ser flexibilizado; O analista deve trabalhar com linguagem mais concreta; O silêncio, o olhar e o afeto ganham mais importância; É fundamental interpretar menos e sustentar mais a presença.
6.3 A relação entre cognição e defesas psíquicas
Freud propôs que o eu é uma organização a serviço da realidade. Quando a cognição falha: O eu perde capacidade de julgamento; As defesas psíquicas se tornam mais primitivas; Aumentam angústias persecutórias e confusões.
6.4 Pensamento e simbolização
Para Bion, a perda cognitiva impede a capacidade de sonhar e pensar. Assim: O paciente tende à dispersão; Repete comportamentos sem sentido; Perde a função de elaborar experiências emocionais.
7. Considerações Finais
A análise psicanalítica dos transtornos cognitivos permite compreender que eles não afetam apenas funções mentais isoladas, mas a própria organização subjetiva. Embora haja substrato neurobiológico, a dimensão psíquica permanece ativa e exige atenção.
A Psicanálise não se limita a explicar déficits, mas a compreender como o sujeito vive, reage e simboliza tais perdas. O diálogo entre Psicanálise e Neuropsicologia, entre outras Ciências do ramo enriquece a clínica e oferece caminhos de intervenção mais humanizados, que reconhecem o sofrimento do sujeito para além de seus sintomas.
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