A ÉTICA PSICANALÍTICA FRENTE AOS DESAFIOS GLOBAIS CONTEMPORÂNEOS: Reflexões sobre a Telepsicanálise em Tempos de Pandemia

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Autor(a): Adilson Teodoro da Silva
RQH: A-750949-BRA

IBTERAPIAS – Instituto Brasileiro de Terapias Holísticas
Psicanálise Clínica
Adilson Teodoro da Silva
A ÉTICA PSICANALÍTICA FRENTE AOS DESAFIOS GLOBAIS CONTEMPORÂNEOS:
Reflexões sobre a Telepsicanálise em Tempos de Pandemia
Uberlândia – MG
2026

SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO3
2 DESENVOLVIMENTO4
2.1 A pandemia como ruptura do setting clássico freudiano4
2.2 A telepsicanálise como adaptação ética necessária4
2.3 Manter o ambiente terapêutico (Winnicott e Bion) na tela5
2.4 Privacidade e o novo consultório interno do sujeito6
2.5 Os ecos de outros desafios globais: trauma sociopolítico e desenraizamento6
3 DISCUSSÃO / ANÁLISE CRÍTICA7
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS9
REFERÊNCIAS9
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A ÉTICA PSICANALÍTICA FRENTE AOS DESAFIOS GLOBAIS CONTEMPORÂNEOS:
Reflexões sobre a Telepsicanálise em Tempos de Pandemia
Adilson Teodoro da Silva
1 INTRODUÇÃO
“Como profissional em constante processo de formação, compreendi que a psicanálise é um estudo contínuo para a vida toda. Ao enfrentar o desafio de integrar os fundamentos psicanalíticos com a prática clínica contemporânea, busquei nesta pesquisa compreender como a nossa ética se mantém firme diante das rupturas impostas pelos recentes cenários globais.”
O autor
A ética psicanalítica, desde a sua fundação com os trabalhos inaugurais de Sigmund Freud no final do século XIX e início do século XX, consolidou-se em torno de um eixo inegociável: a escuta rigorosa e flutuante, e a sustentação de um espaço seguro, livre de julgamentos morais, para a emergência das verdades mais profundas do inconsciente do sujeito. Historicamente, a garantia desse ambiente de acolhimento, sigilo e neutralidade foi delimitada pela materialidade do setting clínico — o consultório físico, a disposição do divã e a presença atenta e silenciosa do analista funcionavam como um verdadeiro território protegido das urgências do mundo exterior.
A eclosão da pandemia de COVID-19, evento de proporções globais e impacto traumático sem precedentes, invadiu de forma abrupta esse enquadre até então protegido. O isolamento social obrigatório forçou uma reinvenção imediata da prática terapêutica. Diante desse cenário de ruptura, este trabalho delimita sua análise ao desafio de manter e adaptar o ambiente terapêutico e a postura analítica por meio da telepsicanálise nesse período crítico.
Defende-se aqui a tese de que a transposição do setting físico para o ambiente virtual não representou um desvio técnico ou um empobrecimento da prática psicanalítica, mas configurou-se como um imperativo ético de cuidado e manutenção do laço transferencial. Nas seções seguintes, o texto discute a pandemia como ruptura do setting clássico, a migração para o digital como resposta ética, a viabilidade de recriar o continente simbólico (Winnicott e Bion) através das telas, e, por fim, as questões de privacidade e outros desafios globais correlatos.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 A pandemia como ruptura do setting clássico freudiano
O setting clássico, tal como desenhado por Freud, consolidou-se como um enquadre de rigor necessário: o uso do divã, a constância dos horários, a associação livre, a atenção flutuante e a presença física em um espaço isolado tornaram-se pilares da técnica. Esse arranjo constituía a moldura essencial para proteger o sujeito das invasões da realidade externa.
A pandemia operou como ruptura traumática aguda dessa estrutura. Profissionais e pacientes viram-se submetidos ao mesmo risco e desamparo diante do adoecimento, fraturando a ilusão de uma assimetria protetora entre analista e analisando. A clínica presencial tornou-se, paradoxalmente, um potencial vetor de risco, precisando ser esvaziada — o que exigiu que a psicanálise interrogasse a si mesma sobre o que, de fato, constitui o cerne da experiência analítica.
Pontos positivos:
Evidenciou a resiliência e a capacidade de adaptação da técnica psicanalítica.
Forçou uma reflexão teórica renovada sobre o que é essencial (função analítica) versus o que é acessório (espaço físico) no setting.
Estimulou a comunidade psicanalítica a atualizar sua prática diante de uma realidade inédita.
Pontos negativos / limites:
Perda do controle do analista sobre o ambiente físico e suas variáveis.
Ruptura abrupta, sem preparo teórico ou técnico prévio para grande parte dos profissionais.
Sobrecarga emocional simultânea de analista e paciente, ambos atravessados pelo mesmo evento traumático coletivo.
2.2 A telepsicanálise como adaptação ética necessária
Diante da impossibilidade sanitária do encontro físico, a migração para a telepsicanálise não ocorreu por conveniência ou interesse mercadológico, mas como resposta ética clinicamente responsável. Diferentemente da moralidade instituída (FREUD, 1930), a ética psicanalítica — conforme Lacan (2008) desenvolve em O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise — fundamenta-se no compromisso do sujeito com seu próprio desejo e na responsabilidade do analista em sustentar esse espaço.
O abandono do paciente no ápice de uma crise humanitária configuraria uma violação ética grave, impondo um segundo trauma a sujeitos já fragilizados. O próprio Freud demonstrava flexibilidade clínica quando a situação exigia, ajustando sua técnica à singularidade da dor apresentada. A telepsicanálise, assim, estabeleceu-se como ponte para manter viva a presença terapêutica.
Pontos positivos:
Garantiu a continuidade do cuidado, evitando o abandono do paciente em momento de crise aguda.
Democratizou o acesso, alcançando pacientes em regiões sem profissionais especializados disponíveis.
Manteve o vínculo transferencial vivo em um momento de ruptura social generalizada.
Pontos negativos / limites:
Risco de banalização da técnica por profissionais despreparados tecnicamente para o formato remoto.
Ausência, em muitos contextos, de regulamentação clara sobre a prática à distância.
Possível tensão entre necessidade clínica genuína e pressão mercadológica pela expansão do atendimento online.
2.3 Manter o ambiente terapêutico (Winnicott e Bion) na tela
O espaço da clínica transcende sua materialidade; constitui uma geografia emocional e relacional. Winnicott legou o conceito de holding (sustentação) (WINNICOTT, 1983): o ambiente analítico deve funcionar como um espaço “suficientemente bom”, um colo simbólico para as regressões e vulnerabilidades do sujeito. Bion, de forma complementar, desenvolveu a noção de reverie (continência) (BION, 1991): a capacidade do terapeuta de receber emoções brutas do paciente, processá-las e devolvê-las de forma tolerável.
Existe inegável perda sensorial na telepsicanálise: a linguagem corporal incompleta, a ausência do calor presencial, o desafio de sustentar silêncios sem a interferência da ansiedade tecnológica. No entanto, a vivência clínica revela que holding e reverie não dependem da proximidade física para atuar. A constância — o olhar atento, a escuta ativa, a pontualidade, a implicação autêntica do terapeuta — cria uma teia de suporte emocional. O ambiente terapêutico revelou-se, também, um estado mental de disponibilidade.
Pontos positivos:
Comprovou que as funções psíquicas estruturantes (holding, reverie) não dependem estritamente da presença física.
Ampliou o repertório técnico do analista, exigindo maior implicação e escuta ativa.
Fortalece a resiliência da profissão diante de futuras crises ou impossibilidades de atendimento presencial.
Pontos negativos / limites:
Perda de informações não verbais sutis (micro-expressões, presença corporal integral, elementos sensoriais do ambiente físico).
Fadiga de tela: desgaste cognitivo acentuado tanto para analista quanto para paciente em sessões prolongadas por vídeo.
Dificuldade acrescida em sustentar silêncios terapêuticos, muitas vezes interrompidos pela ansiedade da conexão instável.
A experiência clínica vivenciada durante o período pandêmico evidenciou um cenário em que os sujeitos estavam tomados pelo pânico, paralisados pela incerteza do amanhã, pelo medo da contaminação e pela iminência do luto. Essa atmosfera de crise coletiva impôs barreiras severas à escuta psicanalítica, uma vez que o trauma social sem precedentes deixava o paciente sem perspectivas aparentes de elaboração. Nesse contexto, o maior desafio técnico residiu na sustentação da neutralidade e da serenidade analítica: exigiu-se do profissional o manejo da ferramenta digital e, sobretudo, a capacidade de conter a própria angústia diante de um sofrimento generalizado, mantendo o aparelho psíquico firme para servir como continente ao terror do outro (BION, 1973).
2.4 Privacidade e o novo consultório interno do sujeito
A adoção da telepsicanálise inaugura desafios éticos quanto ao sigilo e à privacidade. No setting clássico, o analista detinha controle sobre as fronteiras acústicas e visuais do consultório. No ambiente domiciliar, essa fronteira torna-se porosa: sessões podem ser atravessadas pela presença de terceiros, escutas involuntárias ou interrupções da dinâmica familiar (WINNICOTT, 2001).
A ética psicanalítica demanda, nesse contexto, uma postura proativa do terapeuta — psicoeducação para a construção de um “consultório interno”, pactuação de regras de sigilo, uso de fones de ouvido e apoio ao paciente para reivindicar um espaço de privacidade dentro de seu próprio lar.
Pontos positivos:
Estimulou o desenvolvimento da autonomia do paciente na construção do próprio espaço terapêutico.
Abriu um debate ético necessário e antes pouco explorado sobre segurança digital na prática clínica.
Pontos negativos / limites:
Risco real de quebra de sigilo por terceiros presentes no ambiente doméstico do paciente.
Dependência de infraestrutura tecnológica: nem todo paciente dispõe de conexão estável ou espaço privado em casa.
Maior vulnerabilidade a vazamento de dados e invasões nas plataformas digitais utilizadas.
2.5 Os ecos de outros desafios globais: trauma sociopolítico e desenraizamento
A pandemia funcionou como lente de aumento, mas não está sozinha na produção de sofrimento psíquico contemporâneo. A ética psicanalítica também é convocada diante de crises migratórias e do desenraizamento de populações vulneráveis (ROSA, 2016). O sujeito forçado a abandonar seu território de origem perde não apenas bens materiais, mas sua língua, seus laços socioculturais e suas referências identitárias — um luto complexo pela própria subjetividade deixada para trás (FREUD, 1917).
Pontos positivos:
Expande o escopo social da psicanálise, tornando-a mais relevante diante de questões coletivas contemporâneas.
Promove a escuta de um sofrimento de ordem sociopolítica historicamente pouco integrado à clínica tradicional.
Pontos negativos / limites:
Risco de o analista não possuir formação cultural suficiente para lidar com a diversidade de vivências migratórias.
Barreiras linguísticas reais podem comprometer a qualidade da escuta e da aliança terapêutica.
Risco de “psicologizar” excessivamente questões estruturais que também exigem resposta política e social, não apenas clínica.
3 DISCUSSÃO / ANÁLISE CRÍTICA
A intersecção entre a teoria psicanalítica clássica e a urgência da prática digital contemporânea revela conclusões relevantes para o futuro das psicoterapias. A telepsicanálise, inicialmente vista com ceticismo por setores mais ortodoxos, consolidou-se como via adaptativa legítima e, para muitos casos, transformadora.
As resistências iniciais entre a defesa de um espaço físico isolado e a fluidez das telas cederam diante dos resultados clínicos observados. A experiência pandêmica revelou que a clínica psicanalítica prescinde de um mobiliário específico, configurando-se como uma prática viva e responsiva aos desafios do seu tempo — ainda que, como visto, essa adaptação traga também limites e riscos que exigem vigilância técnica e ética contínua.
Essa reconfiguração teórica ganha contornos ainda mais nítidos quando observada a partir da experiência clínica cotidiana durante o período mais agudo da pandemia (BIRMAN, 2020). Os relatos que chegavam ao consultório virtual revelavam um estado quase generalizado de desespero e medo: pacientes relatavam crises de pânico recorrentes e quadros de ansiedade intensos, muitos deles inéditos em sua própria história pessoal, desencadeados pela combinação entre o risco biológico iminente, a incerteza econômica e o isolamento prolongado.
Ao sofrimento psíquico somava-se, com frequência, a impossibilidade de trabalhar. A perda ou suspensão da atividade profissional aprofundou a sensação de desamparo e, em muitos casos, precipitou uma convivência doméstica ininterrupta que se assemelhava, na fala de diversos pacientes, a uma espécie de reality show forçado: casais e famílias que, antes da pandemia, mantinham uma rotina de contato breve e espaçado — sair para trabalhar, retornar à noite, dormir e sair novamente — viram-se, de uma hora para outra, obrigados a compartilhar o mesmo espaço físico durante vinte e quatro horas por dia, sem intervalo ou fuga possível.
Essa ausência de distância, historicamente naturalizada pela própria rotina do trabalho, expôs fragilidades relacionais que até então permaneciam veladas pela dinâmica do cotidiano. Não por acaso, observou-se no consultório um aumento expressivo na procura por atendimento decorrente de conflitos conjugais e familiares, muitos dos quais culminaram em separações. O convívio contínuo, sem os intervalos que antes regulavam a intimidade e preservavam certa margem de tolerância mútua, revelou tensões acumuladas e, por vezes, precipitou rupturas que a rotina anterior mantinha represadas.
Diante desse quadro, a telepsicanálise garantiu a continuidade do tratamento de quadros pré-existentes e revelou-se, sobretudo, instrumento fundamental para acolher uma nova ordem de sofrimento, gestada dentro dos próprios lares. Coube ao analista, muitas vezes, testemunhar em tempo real a desestruturação dos vínculos que se desenrolava no cômodo ao lado da tela — evidenciando, mais uma vez, que a função de conter e elaborar a angústia do sujeito independe da geografia física da sessão, exigindo do terapeuta uma escuta ainda mais atenta às urgências do tempo presente.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A verdadeira matéria-prima da psicanálise nunca foi a madeira do divã, mas a transferência; por isso, a travessia da clínica virtual nos lembrou que a escuta rigorosa não precisa de paredes para operar, mas apenas de um sujeito que escuta e de outro que ousa falar.
A pandemia de COVID-19, como desafio global agudo, reconfigurou o cenário físico e espacial da clínica, mas não corrompeu seus pilares éticos e estruturais. A migração para a telepsicanálise reafirma a tese central deste trabalho: a ética que rege a psicanálise é, essencialmente, uma ética voltada para a implicação, a responsabilização clínica e o acolhimento do sujeito frente à sua dor.
As balizas teóricas de Winnicott e Bion mostraram-se ferramentas capazes de operar independentemente da proximidade física dos corpos. A lição que fica é de ordem existencial: o recurso terapêutico mais transformador nunca foi o formato da sala, mas a disposição genuína de continuar ouvindo as fraturas do outro, amparando sem julgamento, ainda que mediado por uma tela.
REFERÊNCIAS
BION, Wilfred R. O aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
BION, Wilfred R. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1973.
BIRMAN, Joel. O trauma na pandemia do Coronavírus: suas dimensões políticas, sociais, econômicas, ecológicas, culturais, éticas e científicas. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 30, n. 2, 2020.
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas, volume 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 170-194. (Trabalho original publicado em 1917).
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas, volume 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 13-122. (Trabalho original publicado em 1930).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. (Trabalho original proferido em 1959-1960).
ROSA, Miriam Debieux. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento. São Paulo: Escuta/Fapesp, 2016.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.
WINNICOTT, Donald W. A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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